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CURIOSIDADES
Em 1922, Santos viu-se abalada por uma pendência de terras da marinha, quando um grupo de cidadãos pretendeu apoderar-se de suas praias a título de aforamento. A cidade resistiu à ação e se organizou num movimento em defesa do patrimônio público, onde puseram-se à frente Câmara e Prefeitura, que desde o primeiro instante contaram com o apoio do povo, das instituições, da Imprensa e da sociedade. Vicente de Carvalho, o poeta do mar, em carta aberta, solicitou ao Presidente da República, Epitácio Pessoa, sua influência no desfecho da questão, que ameaçava o retalhamento das praias santistas.

"...Interpreto, perante V.Exa., Supremo Magistrado da Nação, um sentimento que está apaixonando toda a população santista. Paira sobre ela a ameaça de ser privada da melhor das belezas de sua terra - da linda praia da Barra, jóia doada pela Natureza e que a nossa cidade vem de geração em geração gozando largamente e conservando com carinho... No pretexto de que essa praia é terreno de marinha, se alicerça particulares na tentativa de apropriar-se dela a título de aforamento... Entretanto, assim no domínio privado, o tradicional logradouro público desapareceria fracionado... a linda praia da Barra deixaria de existir..."

Felizmente, o Presidente da República resolveu a questão em favor do interesse público e hoje podemos nos orgulhar dos mais belos jardins do mundo beirando as praias da nossa Cidade.
 
 A seguir ...
Dados obtidos pelo registro de próprio punho de um de seus filhos, Augusto, 1974)
 
tarja_pensador
No Seminário Episcopal em São Paulo, aconteceu um episódio que levaria Vicente de Carvalho a sair do Colégio, tal sua gravidade. Este fato influiu muito na sua formação política e posicionamento religioso.
Vicente e alguns colegas incentivavam o copeiro do Colégio a levar, `as escondidas, comida a um negro, que havia fugido de seu “senhor”  e se escondera num terreno pertecente a Instituição. Descoberto, o negro foi castigado diante de Vicente e seus companheiros, fato este que fez escrever a seu pai para retirá-lo do Colégio. Desde então afastou-se da instituições religiosas e passou a professar-se “Livre Pensador”.

tarja_pescador
Certa vez quando pescava camarões, no rio do canto da praia do Guarujá, para usá-los como isca de suas pescarias, no costão da Enseada, foi abordado por dois homens estrangeiros, bem vestidos e apessoados, que desejavam atravessar o rio.
Como Vicente estava descalço, com as calças arregaçadas até os joelhos e usando um chapéu igual dos pescadores, foi tomado como tal pelos homens, os quais pediram-lhe a travessia em sua canoa. Compreendendo a situação dos estrangeiros fez o translado. Ao desembarcar lhe perguntaram quanto seria o serviço prestado, ao que Vicente respondeu que nada tinham a pagar. Insistiram em saber quanto deviam, porém ele disse que não era balseiro e sim um simples pescador, portanto nada poderia cobrar. Assim mesmo um dos estrangeiros ofereceu-lhe uma moeda de quatrocentos réis, agradecendo pelo feito e que não recusasse, pois mais tarde poderia tomar “um gole”. Sem se sentir humilhado, o “pescador” acabou aceitando a moeda, conservando seu anonimato.
Dias depois escreveu uma crônica para jornal santista A TRIBUNA, relatando o ocorrido com detalhes, sem citar nomes.
Um dos estrangeiros, cônsul da Alemanha, percebeu que era com ele o fato, foi a redação para conhecer o autor da crônica. Então lhe informaram que se tratava de Vicente de Carvalho. Mais do que depressa pediu-lhe desculpas por tomá-lo como um simples pescador. O Poeta do Mar, agradeceu mais uma vez a moeda, contando-lhe que já estava guardada, junto as suas medalhas, como recordação.

tarja_origem
Em 1893 Vicente de Carvalho conheceu Bertioga devido ao general Couto de Magalhães, opositor do então presidente da República, Floriano Peixoto, conhecido também como “Marechal de Ferro”. O general refugiou-se nas praias daquela região devido a perseguições políticas. Vicente teve vários contatos com o amigo e assim deu-se seu primeiro encontro com o litoral norte paulista e ficou fascinado.
Em 1917 comprou uma área no costão da praia e batizou de “Sítio Indaiá”, seu paraíso de onde obteve suas melhores inspirações. Conhecia todo o litoral desde Cananéia até Ubatuba, mas foi ali, hoje praia do Indaiá, que encontrou seu refúgio.
Construiu uma casa, cujo o acesso era difícil e seu espírito inovador pode materializar a modernidade de sua visão de mundo. Buscou inspiração em casas de madeira de Santa Catarina, de onde mandou cortar peça por peça, sendo depois transportadas por ferrovia e batelões.
Com paredes duplas para amenizar o calor do litoral, a casa tinha também água encanada (raridade para o local) e fez da areia de seu quintal, um pomar com 32 qualidades de frutas diferentes. Amava o Indaiá e trouxe mais 300 convidados entre 1917 e 1924. Da listagem podemos ressaltar personalidades como José Maria Whitaker, Samuel de Toledo, Macedo Soares e Washington Luis, então presidente do Estado de São Paulo (governador) e mais tarde presidente da República.

tarja_interior
Quanto `a educação, como Secretário do Interior, cuidou com grande interesse da instrução pública, reformou o ensino paulista, dividindo-o em três estágios (primário, secundário e superior). Para modernizar os métodos de ensino antiquados trouxe a professora americana, Miss Brown, que criou o primeiro Jardim da Infância oficial.

tarja_desistencia
O fato que decidiu dar sua carreira política por encerrada, foi o incidente com o Secretário de Estado da Agricultura, que o acusou de ter recebido comissão na compra de terras pelo Estado. Inconformado diante da acusação, pediu demissão do cargo, (Secretário do Interior), mas o Presidente do Estado (governador) não aceitou. Para poder resolver pessoalmente a situação e ter por definitivo sua demissão, em uma solenidade, na abertura do Congresso (14 de julho de 1892), aproximou-se de seu colega, e disse-lhe: “a resposta de seu ofício me acusando de desonestidade é esta” e deu-lhe, em público, um tapa no rosto.
Assim encerrou sua vida política, preferindo dedicar-se a Advocacia.

tarja_humor
O poeta santista sempre dizia: “Todo trabalho honesto engrandece quem o pratica, mesmo que a recompensa seja pequena ou insignificante ou, ainda, mesmo que não haja recompensa”.
 
tarja_pequenino
Em O Relicário, dedicado a sua esposa Ermelinda (Biloca), o poema “O Pequenino Morto”, de grande sucesso, foi inspirado na morte de um sobrinho. Tempos depois, quando o poeta perdeu sua segunda filha Adelaide, resolveu refazer a poesia, escrevendo a que está em Poemas e Canções, porém conservando o mesmo título.

tarja_caolho
Vítima de uma infecção, resultante de bolhas nos dedos, com apetrechos de pescaria ao voltar da Ilha Queimada Grande, SP, o fato acabou custando-lhe a amputacção de seu braço esquerdo. Conformava-se com a situação, mas seu senso de humor fez-lhe a seguinte frase: “Camões era maneta de uma vista e, eu, caolho de um braço”.

Este era o homem Vicente de Carvalho, de personalidade firme e decida, que além de sua Obra, soube fazer-se respeitado. Sua singularidade fora o  resultado de sua modernidade de pensamentos e inteligência de seus atos.
 




























Adaptado por Beatriz de Carvalho e Joombo